Apresentação


Este blog destina-se a profissionais, estudantes e demais interessados nas áreas da Ciência da Informação, Arquitetura da Informação, Ciência da Computação, Tecnologia da Informação e História da Ciência, constituindo-se como um espaço para a publicação e discussão de temas que contribuam para a compreensão e desenvolvimento destas áreas

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os Primeiros Computadores Eletrônicos – cont.


O ENIAC, Segundo Dilys Winegrad e Atsushi Akera(20), concebido e construído na Escola Moore de Engenharia Elétrica da Universidade da Pennsylvania, não foi o primeiro dispositivo eletrônico de cálculo. No início da década de 1930, físicos já dispunham de contadores de radiação que utilizavam válvulas eletrônicas a vácuo, como no caso do ENIAC, e diversos laboratórios de pesquisa produziram dispositivos capazes de contar de um a dez. Já no final da década de 1930 e início da década de 1940, existiam pelo menos outras três iniciativas independentes, tratando de problemas de computação com o uso de circuitos eletrônicos: John Atanasoff, British Intelligence (Serviço de Inteligência Britânico) e IBM (International Business Machines).
 
Entre 1937 e 1941, John Atanasoff, professor de física na Universidade Estadual de Iowa, que interessava-se pela construção de máquinas de alta velocidade para a resolução de problemas genéricos de computação, decidiu projetar um equipamento para solucionar sistemas complexos de equações lineares. Com a ajuda de Clifford Berry, ex-aluno de graduação da Universidade de Iowa, desenvolveu um dispositivo que ficou conhecido como Computador Atanasoff-Berry (ABC), mas que até o final de 1941 não estava totalmente operacional.
 
Com o início da campanha norte-americana na Segunda Guerra Mundial, Atanasoff foi impelido a interromper seus trabalhos com o ABC e assumir, em dezembro daquele ano, um posto no Laboratório de Artilharia Naval, em Washington, D.C. Embora o ABC fosse um computador de uso específico, ele teve como mérito o fato de todas as suas operações de adição e multiplicação serem executadas por circuitos totalmente eletrônicos. No entanto, o uso de um dispositivo eletromecânico para armazenar dados e resultados intermediários, impunha um gargalo no sistema, limitando sua velocidade de processamento.
 
Neste mesmo ano de 1941, a IBM, cuja experiência anterior era em equipamentos de leitura e perfuração de cartões, projetou um dispositivo eletrônico de multiplicação, em colaboração com a Universidade de Columbia, onde pesquisava-se mecanismos para acelerar a execução de aplicações científicas na área de matemática.
 
Neste contexto, somente o Colossus, computador construído por volta de 1942 em Bletchley Park, na Inglaterra, patrocinado pelo Serviço de Inteligência Britânico, poderia ser considerado uma máquina eletrônica de grande porte. Enquanto Atanasoff e a IBM, pasmem, foram limitados pela disponibilidade de recursos financeiros, Bletchley Park e a Escola Moore, beneficiados pelo esforço de guerra, foram agraciados com enormes recursos para pesquisa e desenvolvimento.

Em 1940, quando parecia cada vez mais provável a entrada dos Estados Unidos na Guerra, o interesse pelas técnicas computacionais atingiu seu auge, movido, principalmente, pela grande quantidade de projetos de armas de artilharia e também pela evolução e conseqüente mudança de padrões militares. Neste cenário, onde a capacidade computacional disponível apresentava-se insuficiente frente à demanda, e o analisador diferencial representava o estado da arte em equipamentos para este propósito, a pesquisa e o desenvolvimento necessários à produção da tecnologia que atendesse às necessidades da nação encontrou solo fértil na Escola Moore.  

Mauchly, Eckert e a
Válvula Eletrônica (44)
No final de 1941*, quando por fim os Estados  Unidos entraram na Guerra, muitos professores e pesquisadores da Escola Moore foram requisitados para o serviço militar ou para projetos militares secretos. Para substituir alguns dos professores engajados no esforço de guerra, a Universidade da Pennsylvania contrataria os PhD's John W. Mauchly e Arthur Burks. Por esta mesma época, J. Presper Eckert Jr, jovem professor, considerado o mais brilhante estudante e o melhor engenheiro da Escola Moore, uniu-se a John Mauchly, para pesquisarem o assunto de maior interesse de ambos: como aplicar a eletrônica para construir computadores de alta velocidade.

Em meados de 1941, Mauchly esteve na Universidade Estadual de Iowa com Vincent Atanasoff e Clifford Berry, que lhe apresentaram suas pesquisas sobre o uso de dispositivos eletrônicos para a realização de cálculos numéricos e, a criação de ambos, o ABC. Inspirados, talvez, pela pesquisa de Atanasoff, Mauchly e Eckert projetaram um computador eletrônico para resolver as equações diferenciais para o Departamento de Artilharia, publicando, já em 1942, um ensaio intitulado "The use of vacuum tube devices in calculating" (O uso de válvulas eletrônicas a vácuo na computação), que se tornaria a base do relatório submetido pela Escola Moore ao Laboratório de Pesquisas em Balística, com o objetivo de conseguir um contrato para a sua efetiva construção. Em outras circunstâncias, provavelmente, as idéias de John Mauchly e J. Presper Eckert seriam rejeitadas como impraticáveis, simplesmente devido ao custo extremamente elevado para a construção do ENIAC.

As válvulas eletrônicas a vácuo, inventadas em 1906 pelo físico norte-americano Lee De Forest, foram usadas até o início da guerra, quase que exclusivamente como amplificadores, quando então se percebeu seu grande potencial como chaveadores eletrônicos ultra-rápidos, podendo alcançar um milhão de operações liga-desliga por segundo. Assim, transformado em dispositivo de chaveamento binário, representava o "0" pela ausência de corrente na placa e o "1" por sua presença.

As válvulas, sob uma perspectiva atual, eram altamente ineficientes: consumiam grande quantidade de energia para incandescer um filamento interno produzindo calor como efeito residual, ocupavam espaço demasiado e precisavam ser substituídas frequentemente. Ainda assim, o seu uso em substituição a componentes de chaveamento mecânico, como aqueles empregados no Analisador Diferencial de Vannevar Bush, foi um grande avanço, resultando em enorme ganho de velocidade.

Em junho de 1942, o Departamento de Artilharia assinou contrato com a Escola Moore de Engenharia Elétrica da Universidade da Pennsylvania, para o uso exclusivo de seu Analisador Diferencial, maior e mais rápido que o do Laboratório de Pesquisas em Balística, para a produção de tabelas de trajetória. A equipe da Universidade da Pennsylvania encarregada deste contrato incluía os professores Weygand, John W. Mauchly e J. Presper Eckert que, visualizando a oportunidade de desenvolverem pesquisas em sua área de interesse, iniciaram um trabalho com o objetivo de encontrar novas soluções para resolver os problemas computacionais daquele órgão. Primeiramente providenciaram uma série de melhoramentos no Analisador Diferencial da Escola Moore para torná-lo mais rápido, substituindo o inseguro amplificador de torque por um dispositivo eletrônico mais confiável. Tais modificações, introduzindo dispositivos eletrônicos no lugar de mecânicos, tornaram o equipamento da Escola Moore mais rápido e confiável, mas ainda assim isto não foi suficiente para conseguir atender a demanda por novas tabelas de trajetória do Departamento de Artilharia, que continuavam a chegar em quantidades cada vez mais elevadas.

Mulheres trabalhando nas máquinas de calcular da Escola Moore 
Com a crescente pressão, a necessidade de encontrar-se meios mais rápidos para executar os cálculos das tabelas de trajetória tornava-se cada vez mais urgente. O cálculo de uma trajetória poderia levar até 40 horas com o uso de uma calculadora de mesa e cerca de 30 minutos com o único Analisador Diferencial da Escola Moore. Como cada tabela continha centenas de trajetórias, o cálculo de uma única delas podia levar vários dias.

Sob estas circunstâncias, Mauchly preparou um relatório no qual apresentava suas idéias para a construção de um computador eletrônico digital, argumentando que este equipamento poderia efetuar 1000 operações de multiplicação por segundo, tornando possível o cálculo das tabelas de trajetórias em questão de minutos ao invés de dias.

Herman H. Goldstine, doutor em matemática pela Universidade de Chicago e tenente do Laboratório de Pesquisas em Balística, encarregado de supervisionar o contrato inicial com a Universidade da Pennsylvania, animou-se com as previsões de Mauchly e Eckert e com a perspectiva de ter uma máquina que pudesse eliminar as constantes pendências no cálculo das tabelas de balística. Uma vez convencido, assumiu a tarefa de viabilizar um novo contrato entre a Escola Moore e o Departamento de Artilharia com o objetivo de financiar o projeto de um computador eletrônico, mil vezes mais rápido que qualquer outra máquina existente. Entretanto, de posse do relatório de Mauchly, Goldstine considerou que tal projeto mais se aproximava de uma história de ficção científica e, para tornar sua posição de patrocinador ainda mais desconfortável, ele tinha a exata noção de que seria necessário gastar centenas de milhares de dólares para provar que aquelas idéias, dos dois engenheiros de respectivamente 35 e 23 anos de idade, estavam corretas. Aquele empreendimento, certamente iria consumir várias dezenas de vezes o orçamento de US$6.500 utilizado para o desenvolvimento do ABC de Atanasoff e Berry.

Além de todos os fatores de risco e da elevada pressão a que estavam submetidos, somava-se ainda a opinião contrária da maioria dos engenheiros elétricos da época, que acreditavam que tais idéias nunca funcionariam. Apesar do cenário hostil, os dois jovens engenheiros da Escola Moore, aspirantes a inventores de computador, e o matemático tenente, investido no papel de defensor e patrocinador do projeto, resolveram levar o projeto a diante. Em nove de abril de 1943, em reunião na qual participaram o superior de Goldstine, Coronel Leslie Simon, diretor do Laboratório de Pesquisas em Balística, e Oswald Veblen, presidente do Instituto de Estudos Avançados de Princeton e um dos principais encorajadores da pesquisa matemática com fins militares, Goldstine, Mauchly e Eckert apresentaram um audacioso plano para a construção da máquina mais complexa do mundo.
 
Segundo Goldstine, era enorme o risco associado ao projeto do computador eletrônico, mas o momento vivido pelo Departamento de Guerra dos Estados Unidos apresentava-se como uma oportunidade que tornaria inevitável o desfecho da questão, como registrado por suas próprias palavras: (35)
 
"… nós devemos perceber que a máquina em questão conterá mais de 17.000 válvulas de 16 tipos diferentes, operando a uma frequência básica de 100.000 pulsos por segundo… a cada 10 microssegundos poderá ocorrer um erro se apenas uma das 17.000 válvulas funcionar incorretamente; isto significa que em um simples segundo existem 1,7 bilhões de chances de ocorrer uma falha… O homem jamais construiu um instrumento capaz de operar com este grau de precisão e confiabilidade, e este é o motivo pelo qual este empreendimento apresenta, ao mesmo tempo, tão elevado risco e tamanha realização.
…Após estar ouvindo por pouco tempo a minha apresentação, enquanto balançava sua cadeira apoiada apenas nas pernas traseiras, Veblen derrubou-a barulhentamente, levantou-se e disse: - Simon, dê o dinheiro a Goldstine."
 
Assim, em 05 de junho de 1943, foi assinado um novo contrato, sob o codinome de Projeto PX, no valor de aproximadamente US$500 mil, em valores históricos, para que fosse realizado o desenvolvimento e a construção de um computador e integrador numérico eletrônico – o ENIAC.

A equipe formada para esta empreitada seria supervisionada pelo Professor Brainard, com Eckert como engenheiro chefe e Mauchly como principal consultor. Mais tarde, em 1944, John von Neumann integrou-se à equipe que já estava construindo o ENIAC. Curiosamente, esta nova adesão deveu-se à casualidade de von Neumann ter conhecido Herman Goldstine numa plataforma de trens no verão daquele ano, iniciando assim uma amizade que perduraria até o final de sua vida. Sob o ponto de vista de Goldstine, este matemático notável e uma das personalidades mais respeitadas e solicitadas de sua época, seria um apoio providencial para reduzir os riscos inerentes ao projeto de tamanha envergadura. Por seu lado, após obter algumas informações de seu novo amigo, von Neumann interessou-se em participar do projeto, no que foi prontamente atendido.

* Devido ao ataque japonês à Pearl Habour em 07 de dezembro de 1941, os Estados Unidos declararam guerra ao Japão em 8 de dezembro e, em apoio ao seu aliado, a Alemanha e a Itália declararam guerra aos Estados Unidos, em 11 de dezembro. (Nota do Autor)


Arquivo com os texto completo para consulta e download:

sábado, 17 de julho de 2010

História da CIência da Computação - Tópicos

Já temos uma lista provisória de tópicos a serem abordados neste trabalho, a qual gostaríamos de compartilhar com vocês. Caso tenhamos deixado de fora algum assunto pertinente ao tema, por favor, sintam-se a vontade para sugerir inclusões ou alterações.

Lista Provisória de Tópicos:

Agradecimentos

Sumário

Introdução

Apresentação

Parte 1: A História dos Primeiros Computadores

Uma Questão de Semântica
Os Primórdios
Os Registros Mais Antigos
O Legado Árabe
Fibonacci e a Divina Proporção
A Introdução do Sistema Decimal no Ocidente
O Ábaco
Os Visionários e os Primeiros Instrumentos de Calcular
Leonardo da Vince
John Napier
William Oughtred
Wilhelm Schickard
Samuel Morland
Gaspar Schott e Athanasius Kircher
René Grillet de Roven
John Couch Adams, Dorr Eugene Felt, Léon Bollée, Henri Genaille e Otto Steiger
Blaise Pascal
Gottfried Leibniz
Joseph-Marie Jacquard
Samuel Morse e o Código Binário
Os Precursores
Charles Babbage
Augusta Ada Byron
Thomas Fowler
George Boole
Herman Hollerith
William Seward Burroughs
Vannevar Bush
Claude Elwood Shannon e a Teoria da Informação
Sumário Cronológico I – Da Pré-história às Calculadoras de Mesa
Parte 2: O Surgimento dos Computadores Eletrônicos

As Grandes Guerras Mundiais
A Primeira Guerra Mundial
A Segunda Guerra Mundial - Antecedentes
A Segunda Guerra Mundial – A Europa caminha para a Guerra
A Segunda Guerra Mundial – Desenrolar e Término
Os Primeiros Computadores Eletrônicos
O ENIAC
Os Idealizadores
John Vincent Atanasoff
Clifford Edward Berry
John William Mauchly
John Persper Eckert Jr.
John Louis von Neumann
O EDVAC e Seus Descendentes
Howard Hathaway Aiken e o Mark I
Konrad Zuse e o Z3
Bletchley Park e o Colossus
Alan Turing
Sumário Cronológico II – Os Primeiros Computadores Eletrônicos
Parte 3: Da Lâmpada ao Transistor

A Lâmpada e a Válvula Eletrônica
Thomas Alva Edison
Nikola Tesla
Sir John Ambrose Fleming
Lee de Forest
Os Semicondutores
A Compreensão da Matéria
A Estrutura Atômica
Materiais Semicondutores e suas Propriedades
A Descoberta do Elétron
Primeiras Aplicações de Uso Popular
O Efeito-de-Campo e a Junção P-N
Graham Bell e o Impulso da Indústria da Telefonia
O Transistor
Walter Houser Brattain
John Bardeen
William Shockley
O Transistor Point-Contact
O Transistor de Junção
Parte 4: O Circuito Integrado e Seus Criadores

O Circuito Integrado
Robert Noyce
Jack Kilby
A Lei de Moore
Nanotecnologia
A Evolução do Conhecimento Científico
Sumário Cronológico III - Da Válvula ao Circuito Integrado
Parte 5: Os Microcomputadores e a Internet

Os Microcomputadores
A Internet
Teilhard de Chardin e a Convergência
Noosfera: a Aldeia Global
A Era da Informação ou Sociedade do Conhecimento
Paradigmas da Comunicação
Bibliografia

Anexos

Anexo 1 – Patente de Fleming, de 1904 - Válvula Termiônica ou Diodo à Vácuo
Anexo 2 – Patente de Lee de Forest, de 1905 - Triodo à Vácuo
Anexo 3 – Patente de Lilienfield, de 1930 - Transistor de Efeito de Campo
Anexo 4 – Patente de Lilienfield, de 1933 - Transistor de Efeito de Campo
Anexo 5 – Patente de Jack Kilby, de 1959 - Circuito Integrado
Anexo 6 – Patente de Robert Noyce, de 1959 - Circuito Integrado
Anexo 7 - Previsões Famosas sobre o Futuro da Tecnologia
Anexo 8 - Acordo de Munique – Texto Integral
Anexo 9 – Pacto Molotov-Ribbentrop, 1939 – Texto Integral
Anexo 10 – Tabela de Mortos na Segunda Guerra Mundial - Wikipédia
Arquivo com o Índice Provisório para consulta e download:

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Os Primeiros Computadores Eletrônicos

Bem, meus amigos...uma vez concluída a construção do pano de fundo, formado pela Segunda Guerra Mundial, podemos passar às histórias daqueles que são considerados os primeiros computadores digitais, ABC, ENIAC e EDVAC nos Estados Unidos, Colossus na Inglaterra e Z3 na Alemanha.


"Existe algo que é mais poderoso que todas as armas do mundo, uma idéia cujo tempo tenha chegado."
Victor Hugo, 1848

Quase um século depois das inovações e conceitos introduzidos por Babbage e George Boole, encontramos um cenário no qual a análise lógica está muito mais desenvolvida; relés eletromagnéticos poderiam ser utilizados no lugar das engrenagens e rodas dentadas, mas ninguém ainda conseguira evoluir além dos princípios de Babbage. Os construtores de grandes máquinas de cálculo, nas décadas de 1930 e 1940, passaram a utilizar fitas de papel perfurado ao invés de cartões perfurados, mas a idéia continuava a mesma: programas com as instruções de operação, e dados a serem processados, codificados de modo diferente e armazenados em dispositivos completamente distintos. Hoje é inquestionável que para executar, copiar, transmitir ou compilar um programa não existem diferenças em relação a trabalhar com dados propriamente ditos. Tudo isto não passa de uma sequência de estados "ligado" ou "desligado", 0's e 1's, armazenados no disco rígido ou na memória do computador. Mas, naquela época, este conceito ainda não estava estabelecido e, mesmo quando a eletrônica substituiu os dispositivos eletromecânicos anteriores, os programas continuavam a ser pensados e implementados em um formato inteiramente diferente de números.
 
A invenção é quase sempre um processo de continuidade, com esforços paralelos e descobertas simultâneas. Certamente, nos é familiar o fato de uma mesma idéia despontar, por vezes, quase que ao mesmo tempo em partes diversas do mundo, surgindo de diferentes centros de pesquisa sem que necessariamente tenha havido alguma forma de colaboração ou troca de informações entre seus pesquisadores. Isto tem sido mais regra que exceção, e temos inúmeros exemplos deste fato, como a invenção do avião, da lâmpada elétrica, da descoberta da estrutura do DNA. No caso dos primeiros computadores eletrônicos digitais, também existem várias histórias paralelas, ocorridas na Europa e nos Estados Unidos da América, mas uma, em especial, destacou-se na preferência dos historiadores, que é a história do ENIAC, onde mais uma vez se confirmou esta criativa tradição no surgimento de invenções, baseadas na realimentação dos esforços e idéias de uma cadeia de contribuições, ainda que seus autores não tivessem conscientemente esta intenção de trabalho em equipe.
 
Para que o leitor não seja involuntariamente induzido a cometer injustiças históricas, é necessário que se esclareça que o desenvolvimento do ENIAC sempre esteve acessível ao público e pôde ser acompanhado abertamente, enquanto o mesmo não se pode dizer em relação à construção do Colossus, projeto liderado pelo brilhante matemático inglês Alan Turing, e que divide com o ENIAC o título de primeiro computador eletrônico digital. Desenvolvido na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, o Colossus teve a sua concepção e construção cercadas por rígida restrição de informações, imposta pelo governo britânico, e que perduraria até meados da década de 1970. A motivação por trás deste cuidadoso silêncio, visando que tal iniciativa não fosse exposta para além do pessoal técnico envolvido em seu projeto e dos agentes do Serviço de Inteligência Britânico, o MI6, responsável por toda a operação que motivaria seu financiamento, construção e operação, pode ser explicada pelo fato de ter sido o Colossus o produto da evolução direta de outros equipamentos, também projetados por Turing naquela mesma época e utilizados na decifração de mensagens militares alemãs, atividade esta que viria resultar em uma vantagem estratégica e fundamental para o desfecho final naquele conflito, favorável aos aliados.
 
Outra questão que eu também gostaria de compartilhar com o leitor, reside na clara percepção de um marco histórico, representado justamente pelo surgimento dos primeiros computadores eletrônicos digitais e que divide a abrangência histórica desta nossa jornada em dois períodos distintos. Temos encontrado significativas diferenças em termos da quantidade e riqueza de informações disponíveis, da complexidade técnica e da forma como influências sociais e políticas impactaram o desdobramento histórico da ciência da computação, estando todas estas características presentes mais fortemente no segundo período estudado e em sintonia com o relativamente recente aumento exponencial da quantidade total de informações geradas pela humanidade, e que, segundo algumas estimativas, estaria sendo dobrada a cada poucos anos. O esforço necessário para mantermos o mesmo nível de acuracidade, dentro dos moldes de contextualização previstos para nortear esta obra, tornou-se maior após ultrapassarmos este ponto de transição.
 
Podemos situar este marco histórico por volta de 1938, coincidindo com o início da aventura que resultaria no desenvolvimento dos primeiros computadores eletrônicos. Neste cenário, toda a Europa sentia-se ameaçada pela eclosão da Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos, ainda se recuperando da Grande Depressão, tentavam se manter distantes do conflito iminente. Para aqueles que se encontravam em solo americano, seus próprios problemas domésticos tinham um apelo maior que as questões internacionais. Entretanto, após o início da Guerra, e à medida que um país após outro foi sendo arrastado para o conflito, que alastrou-se pela Europa, África e Ásia, a possibilidade de envolvimento direto dos Estados Unidos tornava-se cada vez mais evidente e a preocupação com o despreparo de suas forças armadas para enfrentar uma campanha de tal envergadura ganharia força. Logo, haveria o início do esforço para aumentar sua capacidade bélica.(NT1)

O ENIAC (Electronic Numerical Integrator Analyzer and Computer), eventualmente considerado o primeiro computador eletrônico digital, foi desenvolvido com o objetivo de calcular o ângulo que uma determinada peça de artilharia deveria ser apontada para atingir um alvo específico. Seu principal patrocinador foi o Departamento de Artilharia, instituição responsável pelos testes de armas militares realizados no Campo de Provas de Aberdeen, situado em Maryland, EUA.(NT2)

Para conseguir a precisão de pontaria desejada, eram confeccionadas tabelas de trajetória para as armas de grosso calibre que eram testadas no Campo de Provas de Aberdeen. Estas tabelas indicavam a distância que uma ogiva poderia alcançar a partir de determinada inclinação de tiro, precisando a sua confecção levar em consideração muitos fatores que influenciam a trajetória do projétil, a começar pelo tipo de arma e projétil, ângulo de posicionamento, velocidade e direção do vento, temperatura, umidade e pressão atmosférica. Para cobrir todas estas variáveis era necessário o preparo de várias tabelas para cada tipo de arma, e a construção de cada tabela envolvia a resolução trabalhosa de equações diferenciais de segunda ordem para movimentos tridimensionais, que consumia várias horas de trabalho manual. Tal tarefa ficava sob a responsabilidade de uma equipe de profissionais qualificados, formada normalmente por jovens mulheres graduadas em matemática, recrutadas pela “U.S. Army's Women's Auxiliary Corps” (Corpo Auxiliar Feminino das Forças Armadas dos Estados Unidos), após receberem um treinamento apropriado.(19)

O Ballistic Research Laboratory (Laboratório de Pesquisas em Balística), em Aberdeen, tinha a responsabilidade de produzir as tabelas de trajetórias, mas mal conseguia atender à demanda existente antes da guerra. Com o recrudescimento do conflito na Europa, a procura por estas tabelas aumentou e o tempo necessário para produzi-las, assim como o fato de que nem sempre tinham a precisão exigida, tornou-se inaceitável.

Desde 1935, o Laboratório de Pesquisas em Balística já dispunha de um dispositivo matemático, chamado de “Bush Differential Analyzer” (Analisador Diferencial Bush), para ajudar na resolução de cálculos de engenharia bélica. Este equipamento, uma calculadora mecânica e analógica, concebida em 1925 por Vannevar Bush, do Massachusetts Institute of Technology (Instituto de Tecnologia de Massachusetts - MIT), para solucionar problemas computacionais genéricos, era constituído por uma série de hastes e engrenagens que giravam impulsionadas por motores elétricos.
(NT3) Apesar deste dispositivo reduzir significativamente o tempo necessário ao cálculo das tabelas de trajetória, existiam dois grandes inconvenientes: para cada tipo de problema a ser resolvido era preciso substituir manualmente vários componentes mecânicos, o que implicava em grande desperdício de tempo, e, o mais importante, eram os defeitos, que frequentemente ocorriam já próximos ao final de um longo processo de cálculo, causados pela baixa confiabilidade de um de seus componentes, o amplificador de torque, responsável pela velocidade do equipamento. Esta falha elevava o tempo médio de cálculo, acrescentando àquele já empregado na preparação do equipamento e na resolução do problema, o tempo despendido na execução do reparo. Deste, modo tornou-se prioritário encontrar um método que acelerasse o processo de computação e garantisse a exatidão de seus resultados.

Nota do Autor 1. A Segunda Guerra Mundial, como relatado nos capítulos anteriores, teve seu início em 01/09/1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha e terminou com a capitulação germânica em 07/05/1945 e, mais tarde, após os bombardeios nucleares de Hiroshima, em 06/08/1945, e de Nagasaki, dois dias depois, com a capitulação japonesa em 02/09/1945. (248)
 

Nota do Autor 2. Existem controvérsias sobre esta questão, que se tornou motivo para longas disputas judiciais. Algumas fontes, após a decisão oficial da corte norte-americana em 1973, consideram o ABC (Atanasoff-Berry Computer) como sendo o primeiro computador eletrônico digital, enquanto outras creditam este feito ao Colossus inglês, ou mesmo ao Z3 alemão. Alguns autores consideram o crédito concedido ao ENIAC, como sendo devido a uma ampla campanha promocional que o tornou conhecido popularmente como o primeiro computador digital.
 

Nota do Autor 3. Vannevar Bush (1890 – 1974), cientista e educador norte-americano com formação em engenharia elétrica e física, reinventou o “Diference Engine” de Babbage, seguindo sua concepção mecanicista analógica e de base decimal. Em 1935, desenvolveu uma nova versão do Analisador Diferencial, no qual suas engrenagens eram movidas eletricamente e suas instruções eram transmitidas por fita de papel perfurado.(49 e 50)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Segunda Guerra Mundial - Desenrolar e Término

Segue a postagem da terceira e última parte do texto sobre a Segunda Guerra Mundial.
Aproveitamos para também postar as duas primeiras partes revisadas.

...No decurso da Segunda Guerra Mundial, podemos destacar o dia seis de junho de 1944, que entrou para a história como o Dia-D, como um dos mais importantes deste conturbado período. Naquela data, foi realizada, o que continua sendo até os dias atuais, a maior operação de invasão marítima da história. Contando com a participação de impressionante quantidade de navios de guerra, veículos navais e aéreos para o transporte de tropas e milhares de aviões de combate de variados modelos, a Batalha da Normandia, tratada pelo codinome de Operação Overlord, foi o marco que deu início à reação aliada que terminaria por libertar a França, oitenta dias mais tarde, definindo de forma inconteste os rumos e o fim da Guerra.

A maioria dos historiadores, entretanto, acredita que em junho de 1944 a queda Terceiro Reich já estaria definida, mas sem o sucesso da invasão da Normandia, região da França banhada pelo Atlântico e escolhida pelos aliados para o desembarque no continente, provavelmente os russos teriam vencido a Guerra sozinhos, alterando o equilíbrio das forças e o cenário político na Europa pós-guerra, abrindo o caminho para a hegemonia do comunismo no continente.

Muitos dos rumos e estratégias da guerra foram tomados sem o conhecimento público e, somente após a queda do Muro de Berlin e da dissolução da União Soviética, ocorrida oficialmente em 31 de dezembro de 1991, vieram à tona uma complexa rede de intrigas diplomáticas e documentos que comprovam os pactos de não agressão e acordos secretos para a divisão da Europa, firmados entre a Alemanha e a União Soviética, apenas duas semanas antes do início da Segunda Guerra, ocorrido em 01/09/1939 com a invasão e divisão da Polônia entre as duas potências. (229)

Entretanto, Hitler, após a tomada da França em apenas seis semanas, e sentindo-se forte o suficiente para dar os próximos passos em direção ao domínio mundial, precisava decidir-se entre atacar os britânicos, agora apoiados pelos norte-americanos, ou partir para a expansão de suas fronteiras orientais atacando e ocupando seu antigo aliado, a União Soviética. Analisando que britânicos e norte-americanos precisariam ainda de cerca de dois anos para se equiparem e oferecerem alguma ameaça real aos seus planos de hegemonia continental, resolveu-se pela segunda opção, deslocando grande parte de suas tropas para a invasão da União Soviética, iniciada em 22 de junho de 1941, com o codinome de Operação Azul.

Apesar de alertado por alguns de seus generais e por diversas evidências coletadas por seu sistema de informações, Stalin não acreditava na quebra do acordo e invasão eminente pela Alemanha. Uma vez concretizada tal situação, Stalin viu-se forçado a trocar de lado e propor um pacto aos britânicos. Por este novo acordo, os Aliados comprometiam-se a abrir uma segunda frente de batalha, atravessando o Canal da Mancha para retomar a França e forçar os alemães a deslocar grande parte de suas tropas para a região, aliviando a pressão sob a frente de batalha oriental.

Em sérias dificuldades para enfrentar e deter os alemães, Stalin esperava ansioso pela nova frente de batalha, entretanto, tal operação foi sendo postergada pelos aliados, da primavera para o verão, do verão para o outono, ano a ano, adiando a invasão da Normandia de setembro de 1942 até junho de 1944, enfurecendo Stalin e deixando as principais disputas da guerra ocorrerem entre alemães e soviéticos, com enormes perdas e dificuldades para estes.

Churchill, principal responsável pelas sucessivas postergações na abertura da nova frente de batalha, dominando o uso de táticas agressivas de negociação, as utilizava para preservar as tropas aliadas ao mesmo tempo que castigava as forças da Alemanha e da União Soviética.

“A demora é a forma mais letal de negociação.”

Desde 1942, o fronte oriental da guerra utilizava mais de 60% das divisões de combate de Hitler, enfrentando os soviéticos. Apesar da Batalha da Normandia ter recebido maior atenção da imprensa e historiadores ocidentais, e sem a intenção de desmerecer sua importância, não existem precedentes na história para o porte dos combates travados nos territórios ocupados da antiga União Soviética. Batalhas como as de Stalingrado, Kursk, Leningrado, Sebastopol, Kiev e Moscou, alteraram decisivamente o curso da Guerra.

A Batalha de Stalingrado (atual Volgogrado), considerada a batalha mais sangrenta da história da humanidade e o ponto de mudança no desdobramento da II Grande Guerra, foi marcada pela brutalidade e pelo desrespeito aos civis por ambos os lados. Iniciada em 19 de agosto de 1942 e vencida pelos soviéticos em 02 de fevereiro de 1943, sendo responsável, segundo estimativas, por perdas dos dois lados de mais de dois milhões de baixas, entre militares e civis.

Numa cidade sob escombros, e combatendo ferozmente de rua em rua, casa por casa, o exército alemão chegou a ocupar noventa por cento da cidade de Stalingrado e arredores, motivados por uma persistência quase insana, de Hitler, de tomar a cidade que tinha o nome do ditador soviético. Mas o desgaste diário dos mais de cinco meses desta operação, com baixas cada vez maiores de homens e equipamentos, teve um custo muito elevado para as forças do Eixo, destruindo um quarto do total de seus efetivos na Frente Oriental. A impossibilidade de Hitler cumprir suas reiteradas promessas feitas aos seus comandantes na frente de batalha, de enviar reforços e suprimentos, forçando os soldados alemães a passarem por enormes dificuldades e forte racionamento de comida, terminou por minar sua moral e gerar um sentimento de abandono e traição por parte do Reich. Ao final da batalha, os soviéticos somaram mais de um milhão de baixas, mas a partir desta derrota os nazistas não conseguiram mais se recuperar, sendo este o marco do início da libertação da União Soviética e da derrocada da Alemanha.

Cerca de cinco meses mais tarde, em 04 de julho de 1943, outra derrota do exército alemão, na batalha de Kursk, considerado o maior confronto de carros blindados de todos os tempos, arruinou sua temida capacidade ofensiva. De um lado, os países do eixo contavam com 900 mil soldados apoiados por 2.700 dos temíveis tanques Panzer, 10 mil peças de artilharia e 2.500 aviões, entre caças e bombardeios. Os soviéticos, que enfrentaram os alemães com 1,3 milhões de homens, cerca de 3.300 tanques, 20.000 peças de artilharia e mais de 2.600 aviões, cavaram trincheiras, instalaram baterias de canhões e minaram a área de combate. Os soviéticos contaram ainda com a ajuda do serviço de informações britânico, que por esta época já havia conseguido decodificar as mensagens da máquina Enigma, permitindo que soubessem com antecedência todos os planos bélicos das forças armadas da Alemanha para a campanha de Kursk. Ao final de oito dias de batalha, com suas tropas arrasadas e as divisões de tanques Panzer destruídas, Hitler, abatido e pessimista com o provável desenrolar da Guerra, suspendeu o ataque e ordenou a retirada de Kursk, contra a vontade de seus comandantes. Após a vitória em Kursk, o exército soviético, que até então apenas resistia ao avanço alemão, passou à contra-ofensiva, somente parando em Berlin, forçando a capitulação do Terceiro Reich, em 07 de maio de 1945.

Já no final de 1942, os países do eixo também enfrentavam problemas em outras frentes. Sem o devido apoio, provavelmente, em função da grande mobilização de suas forças combatendo os soviéticos, as tropas de ocupação da África, os AfricaKorps, comandados pelo general Erwin Rommel (1891 – 1944), foram derrotados no Egito, em outubro, pelo general britânico Bernard Montgomery (1887 – 1976), retirando-se rumo à Tunísia. Com o desembarque dos norte-americanos na região, em maio do ano seguinte, os AfricaKorps rendem-se, perfazendo cerca de 250 mil soldados alemães e italianos feitos prisioneiros. Em julho de 1943, os aliados desembarcam na Sicília, Benito Mussolini é destituído e a Itália muda de lado. Em início de junho de 1944, coincidindo com a invasão do noroeste europeu, a ofensiva aliada recupera Roma. Em setembro foi a vez de Florença, culminando com a rendição das forças alemãs na Itália, em abril de 1945.

Por sua magnitude e vital importância, a invasão da Normandia foi minuciosamente planejada, calculada e preparada pelo alto comando aliado. Grande parte do armamento bélico foi produzido nos Estados Unidos e transportado para o palco da batalha. Despistar o exército alemão da complexa logística e intensa movimentação de milhares de soldados, aeronaves, embarcações, veículos de transporte e de assalto, tanques de guerra, suprimentos, assim como confundir o inimigo sobre o local e data escolhidos, exigiu perícia e competência do sistema militar de informações dos aliados.

Doze nações aliadas incluindo a Austrália, Canadá, Bélgica, Estados Unidos, França, Checoslováquia, Grécia, Holanda, Noruega, Nova Zelândia, Polônia e Reino Unido participaram da invasão, fornecendo unidades de combate. A Operação Overlord teve seu início em 01 de junho de 1944, mas nos dias que antecederam o desembarque nas praias da Normandia, imperava um mau tempo com nuvens carregadas e chuvas intermitentes, dificultando a travessia do perigoso e traiçoeiro Canal da Mancha e protelando a ordem final de ataque do general norte-americano Eisenhower (1890 – 1969), o supremo comandante aliado. As tropas, já embarcadas nos porões de cerca de três mil barcos de transporte, ancorados na costa da Inglaterra, sofriam com os enjôos causados pelo tempo ruim. James Stagg, o oficial meteorologista, por fim, assegurou ao general Eisenhower que haveria uma trégua nas condições meterológicas no dia seis, definindo assim a data que viria a ficar conhecida como o Dia-D.

Ainda na madrugada do dia seis de junho, mais de 800 aviões lançaram seis regimentos de pára-quedistas anglo-americanos, com mais de 13 mil homens, atrás das defesas alemãs, frustrando a estratégia de Rommel e desorientando-os. Em seguida, ao amanhecer, cerca de 155 mil homem dos exércitos dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá, lançaram-se nas praias da Normandia.

Concluída a libertação de Paris, os exércitos aliados tomaram a direção da própria Alemanha, ultrapassando sua fronteira em setembro de 1944. Em início de 1945, norte-americanos e britânicos, pelo oeste, e soviéticos, pelo leste, disputavam uma verdadeira corrida para ver quem chegava primeiro em Berlin.

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Arquivos com os textos completos para consulta e download:
A Segunda Guerra Mundial - Desenrolar e Término

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A Segunda Guerra Mundial - A Europa Caminha para a Guerra

Segue a postagem da segunda parte do texto sobre a Segunda Guerra Mundial.

Grandes acidentes, em geral, são motivados não por uma causa única, mas por uma combinação fatal de eventos. É provável que o desenrolar da História, com suas inúmeras possibilidades de desfecho, também se comporte da mesma forma, sendo o resultado do encadeamento de uma grande quantidade de escolhas. O historiador britânico Richard Overy (1947 - ), em seu livro “1939: Contagem Regressiva para a Guerra”, nos fornece um conjunto de motivações que poderiam ter formado o cenário propício à declaração final de guerra:

“A guerra iniciada em setembro de 1939 pode ser adequadamente explicada somente no contexto da deterioração da ordem européia durante a década de 1930, quando a crise econômica, a ascensão de ditaduras autoritárias, as profundas divisões ideológicas, as rivalidades nacionalistas e o colapso dos esforços da Liga das Nações para preservar a paz se combinaram para tornar provável um grande conflito.”

Diversas correntes históricas existem sobre este período, algumas postulando que a Segunda Guerra Mundial era inevitável, outras, que simplesmente foi algo indesejado e inesperado que fugiu ao controle daqueles que estavam participando de um jogo político. O próprio Churchill a chamava de a “Guerra desnecessária”, sustentando que se a Inglaterra tivesse se rearmado alguns anos mais cedo e oferecido resistência às ambições de Hitler, de forma clara e enérgica, ela poderia ter sido evitada. A tese de Churchill é rebatida pelos historiadores da linha da inevitabilidade, que preferem acreditar que se a Inglaterra tivesse seguido por esta linha mais dura, a guerra teria apenas sido inevitável mais cedo.

Outros historiadores sustentam ainda que Hitler, ao invadir a Polônia para retomar Danzig, não esperava, em absoluto, que isso fosse provocar a declaração de guerra por parte da Inglaterra, que culminou no conflito generalizado. E que, se Hitler tivesse completado a reunificação dos povos germânicos, incluindo a Áustria, a Renânia, os Sudetos, Danzig e o Corredor, através de plebiscitos e negociações diplomáticas, dificilmente o povo inglês, impregnado que estavam pela doutrina da autodeterminação, de Wilson, apoiaria a entrada da Inglaterra numa guerra para impedir o desejo dos próprios alemães de se unirem numa pátria única. A certeza que podemos ter, amparada pela visão de Overy, é de que houve alternativas e que a inevitabilidade da Guerra pode ser questionada:

“Por maiores, ou mais temporalmente abrangentes, que fossem as forças conduzindo à guerra, houve um momento em que elas tiveram que ser confrontadas, e decisões duras tomadas, pelos principais atores históricos envolvidos. Na história daqueles dramáticos dias imediatamente anteriores a deflagração da guerra, muita coisa ainda pendia na balança. Grandes eventos geram sua própria dinâmica e sua própria história interna. Hoje, a eclosão da guerra parece uma conseqüência natural da crise internacional provocada principalmente pela Alemanha de Hitler. O que se segue tem o objetivo de mostrar que nada na história e inevitável. O estranho diálogo entre sistema e atores está no cerne da narrativa histórica. Eventos podem, eles mesmos, ser tanto causa como consequência, especialmente aqueles que levaram a Europa à guerra setenta anos atrás.”

Diversos foram os momentos decisivos em que a Guerra poderia ter sido evitada, inúmeros foram os acasos e equívocos que conduziram ao seu desfecho. Assim, ficam no ar as possibilidades plausíveis, de que o principal evento catastrófico da história recente da humanidade, pudesse ter sido evitado ou que possa ter ocorrido por acidente de percurso, precipitado por erros de cálculo, informações imprecisas e avaliações políticas equivocadas, sem que o mesmo tenha sido efetivamente planejado ou mesmo desejado por seus principais protagonistas.

Para ler o texto completo, acesse o link abaixo.

Aproveitamos para republicar a primeira parte - Antecedentes -, agora revisada.

Arquivo com os textos completos para consulta e download:
A Segunda Guerra Mundial - Antecedentes
A Segunda Guerra Mundial - A Europa caminha para a Guerra
 
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